Multiverso

Por Jane Maciel


Notas sobre o ensaio fotográfico de Marcelo Carrera e João Pacca


o corpo nu
é o corpo da dobra

o que sobra
depois
e antes
de tudo o que cobre

adereços



Dentro de uma mata ou em uma cachoeira o corpo nu se apresenta em um estado misto de epifania e mimetismo. Corpo-água ou corpo-pedra. A fluidez e a rigidez intercalam o movimento desse corpo-forma que o ensaio fotográfico de Marcelo Carrera e João Pacca produz e apresenta. Produção porque este corpo nu performa frente ao aparelho fotográfico, compartilhando a cena com intensa cumplicidade. Apresentação porque o objeto estético – fotografia – materializa e nos faz ver em preto e branco essa vivência íntima do humano na natureza, ou vice-versa. Poderíamos dizer que tais imagens tentariam justamente diluir esta separação tão moderna, rígida e purista.

Multiverso libera o corpo nu não para ser mais um elemento na paisagem, mas para ser a paisagem, ou ainda, encarnar na paisagem fotográfica. Este corpo também resignifica a divisão de gêneros, uma vez que o adjetivo "masculino" não parece abarcar totalmente a sua presença (mesmo se o desenho dos músculos enrijecidos nos remeta a alguma ideia de masculinidade). Ao fundir-se com água tal corpo veste-se deste feminino líquido e pode também assumir sua forma fluida. Por outro lado, no mesmo ensaio vemos este corpo transfigurar-se em outros estados: animalesco, apreensivo ou mesmo arredio, escondendo-se ou estando prestes a dar um bote.

O escuro desse ambiente coloca-nos em uma atmosfera onírica e por vezes quase mítica, como nos indica as poucas fotos nas quais o corpo está ausente – intervalos desse sonho trêmulo – e mais ainda, como confirmam aquelas nas quais o corpo aparece. Pois quando nos deparamos com uma enorme queda d'água, com seus níveis rochosos e uma figura apoiada na pedra, com a água caindo e escorrendo por seu corpo, não vemos necessariamente um "homem", mas um "ser" que habita esse mundo, que esteve ali por um momento e que só podemos ver pela fotografia. O espelhamento desta imagem abre uma fenda ao meio, que faz convergir o movimento das águas, por onde nosso olhar pode penetrar.

Em Multiverso são os processos que estão em jogo. Não se trata de uma visada documental da natureza e/ou do humano nela, nem tampouco uma relação "instrumental" do corpo humano na fotografia de paisagem[1]. É sobretudo uma experimentação de territorialização nesse ambiente natural, na qual o corpo – nu – pode inclusive fundir-se ou ensaiar seu desaparecimento etéreo, seja pela subexposição que enfatiza as zonas pretas nas fotos, pelo desfoque proposital ou ainda pelo movimento que faz do corpo um borrão fugidio.

A fotografia da queda d'água precipitando sobre um dorso evoca uma intenção quase ritual deste banho. O encontro da água com o corpo propicia uma rachadura no seu movimento e espessura, e forma na poça d'água nervuras impressas como asas brancas decaídas, ilustrando metaforicamente que a queda é movimento natural da vida e que nela pode estar contida a sua potência. Essa figura decaída parece inerte e ao mesmo tempo guarda o prenúncio do seu próximo movimento. O ritmo descendente da água complementa-se à iminência do levantar-se, ao passo que a foto nos aparece sonora, em alguma medida, aquele zunido da pressão da queda d'água na cabeça. Ou som das nossas próprias quedas. Despir-se e se entregar como exercício de liberdade.


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Multiverso é um ensaio fotográfico realizado pelos fotógrafos Marcelo Carrera e João Pacca.

O projeto iniciado em 2013 é uma parceria que vem se estabelecendo através de vivências criativas nas quais os aspectos de produção e edição da fotografia são partilhados, bem como as propostas de dinâmicas performativas e os aspectos conceituais.

[1] Como acontece, por exemplo, nas intenções em criar uma referência de tamanho e proporção no enquadramento ou mesmo em reafirmar o aspecto de descobrimento da natureza pelo fotógrafo aventureiro. Tais estratégias eram recorrentes, por exemplo, no trabalho do fotógrafo Marc Ferrez, um dos pioneiros da fotografia brasileira no século XIX. Ferrez solicitava aos acompanhantes de suas aventuras fotográficas que se posicionassem diante da paisagem e neste caso, a grandeza e amplitude da natureza opõem-se à pequenez do humano, e a ênfase está justamente nessa oposição e diferença.